Décimo duodécimo
Publicado; fevereiro 15, 2012 Filed under: 1, Duodécimos Leave a comment »Você entra, eu desapareço da sala. Não porque eu vá embora – eu não faria isso – mas porque decidi existir em relação a você. Você não me vê, logo eu não estou. Eu estou somente quando você está longe, pois posso existir na ideia de que você faz alguma ideia de mim. Eu, que pensei sempre ser receptiva e parecê-lo, me encontrei introspectiva, introversada, introvertida no canto da sala. Revestida do mesmo pó que encobre a parede, de forma a estar camuflada, como uma esfinge no deserto.
A minha decisão de existir em relação a você veio da descrença que encontrei em mim, nos meus mergulhos pela minha própria substância, de um dia saber quem eu sou. Eu nunca sou. Mas se, eventualmente, eu for algo em relação a você, se você ouvir minhas ideias e talvez até entrar em desacordo com elas, eu serei alguém na sala quando você entrar, prestando atenção no que houver que preste, mesmo que, por um acaso, você desgoste de mim.
Eu escolhi você para existir em relação a, porque eu sinto algo espantoso quando você diz meu nome pela metade (nas poucas vezes em que presenciei – talvez duas). Como se fosse uma enchente, algo de um momento em que eu preciso lembrar que estou viva e fazer o máximo de esforço possível para permanecer nessa condição de verdade. Eu remonto em mim toda a tristeza de ser algo, mas logo lembro-me que não sei o que – quando você vira a cabeça para o outro lado novamente.
A tristeza é o porquê do ser humano.
A natureza é cruel. O ser humano é cruel. Para que a moral? Não há moral nenhuma na natureza. Um bicho mata o outro, morre de maneira agressiva. A nossa morte é uma vergonha. Uma cama de hospital fria, ligado a diversos aparelhos, máquinas. A nossa morte é indigna diante da natureza. No entanto, ela é moralmente e afetivamente agressiva. A gente gosta das pessoas, é uma coisa egoísta, triste. A tristeza é a base da nossa moral. A tristeza é a nossa essência. É, talvez, a beleza do homem. A natureza é tão bela para mim, porque eu a olho e me sinto profundamente triste, porque estou distante. Quanto mais perto eu estivesse da natureza, mais ela seria cruel comigo e eu já não sentiria tanta tristeza.
O ser humano tem uma obsessão pela felicidade. Mas a base disso é tristeza, é uma ideia pessimista da vida. O ser humano quer ser feliz visto que ele não tem nada. Visto que ele quase sempre é alguém no canto de uma sala confundido com a parede.
É por isso que eu decidi existir em relação a você. Eu sozinha fico cheia desse pó de parede.
Nono duodécimo
Publicado; dezembro 29, 2011 Filed under: 1, Duodécimos Leave a comment »permaneço irrequieta, insoniolenta. eu nunca fui de dormir. ou eu não me lembro. você ao meu lado, horizontalmente ao meu lado. eu sentada na cama, olhando para frente, olho suas pernas de esguelha. paradas. a cama nunca foi tão funda? decidida, eu arremesso meu olhar ao seu. seus olhos piscam demoradamente, abrem só até a metade. os meus estatelados, minha pálpebra dura, dura uma eternidade. eu pergunto por você. responde qualquer coisa. acho que você quer que eu durma. sua voz é oca, seus pensamentos são quase sonhos. minhas costelas doem. todos os meus ossos. tão pesados. fica tão pesado não dormir. você fica tão pesado na horizontal, com os músculos relaxados. sem mais argumentos racionais, encosto a cabeça no travesseiro, sem pressa. você sorri um pouquinho, devagar. eu fico te olhando. continuo te olhando. eu ainda estou te olhando. você boceja, quase que parece de propósito, depois diz com a voz perdida ao ar: você não está com sono? eu continuo olhando sem dizer nada, isso só pode ser uma afirmação. foi uma afirmação? sono sonho sono. eu estou o sono? eu não me lembro. em análise ao meu silêncio, você fecha os olhos por um tempo longo. longo. a cama afunda cada vez mais, só do seu lado. eu continuo vendo o teto se aproximando num movimento longo. longo. apertando meu peito contra mim mesma. minhas costelas amassadas doem. contra a cama dura. dura uma eternidade. eu mal pisquei, sua respiração fica visível. a minha, cada vez mais difícil em baixo desse teto. tão perto. você tão longe do meu lado. sua respiração exprime a distância cada vez maior. sua respiração é cada vez maior, ocupa o quarto. eu ocupo tão pouco espaço. o quarto se enche de qualquer coisa angustiante, o ar é viscoso, o teto me esmagando, sua respiração mais alta do que pode caber entre as paredes, meus olhos se enchem de lágrima. eu estou um sonho? eu tô tão cansada. eu pergunto por você. você responde tão devagar quanto abre os olhos. eu te conto como está o quarto. você ouvir é o suficiente. olha ao redor como se fosse natural. você pede para eu tentar mais um pouco eu peço para você tentar mais um pouco. é difícil ceder ao tempo. você está me ouvindo? você fecha os olhos novamente e adormece, é rápido até sua respiração encher o quarto. a cama afunda, pesada, dura. e dura uma eternidade. são meus olhos que ocupam muito espaço. meus olhos abertos. estando na minha insônia. acho que não é mais o espaço, acho que é o tempo. fica mais um pouco, por favor.
Oitavo Duodécimo
Publicado; novembro 4, 2011 Filed under: 1, Duodécimos Leave a comment »Se eu não sou, eu não tenho nada. Não há o que perder quando não se é. Eu estou com você e agora eu posso estar com você só, porque há espaço. Toda a confusão, eu precisei de tempo. De alguns meses. Não me refazer, mas me reconectar aos espaços. Onde é que eu morava? Com quem eu morava? A morte da minha avó trouxe meus pés de volta à terra e eu pude respirar. E como eu era pequena! Eu poderia caber em qualquer lugar, em todos os lugares, dentro de qualquer caixinha. Colocaram a minha vó dentro de uma caixa de madeira e dentro de um buraco na terra onde havia o espaço certo, recortado, e depois cobriram. Nesse momento eu poderia caber na caixinha de remédios da minha vó, dividida entre todos os dias da semana. Entre os doze meses do ano. E foi isso, e eu entendi. Toda a aquela terra e eu me afogando, segurando o ar, pensando em baleias, pesando. Minha casa parecia tão grande agora. Por um momento eu me senti bem que ela estivesse tomada, que não houvesse mais meu quarto, minha sala. Eu sentei na grama do cemitério, enraizei lá, olhando para o buraco aberto e vazio, esperei. Eu sou uma pessoa. Eu estou uma pessoa. Um dia eu não vou mais estar. Eu estou aqui nessa terra e está você ao meu lado. Pronto, não havia mais confusão. Enquanto eu estiver, eu quero estar com você. As flores estiveram lá, perto da minha vó, alguns vasos de cores diferentes. Depois elas murcharam e depois elas secaram e morreram.
Eu não esperava aquilo tudo de mim. Eu estava amedrontada, dividida em muitas partes, em muitos dias da semana. E cada dia eu dormia em algum lugar, porque todo mundo dormia no meu lugar. Não importava onde eu estivesse, tinha alguém no meu lugar. E foi difícil perder as pessoas por elas estarem lá, e por elas não estarem nunca mais, e mais difícil ainda quando eu percebi que ninguém estava perdido, só eu.
E você. Você tentando acompanhar todas as minhas partes espalhadas. Juntava os restos quando eu ia embora e guardava e esperava que eu voltasse a buscá-los. E eu voltava, mas em outras partes. E te confundia e eu chorava. Eu ligava chorando, eu chegava chorando, eu chorei no seu aniversário, porque eu ficava lá, mas não conseguia estar.
Minha casa foi desocupada. Meu quarto. Eu deixo os vasos na janela para pegarem sol e as flores nascem e morrem constantemente, mas a planta continua viva. Eu rego quando a terra está seca, mas não rego muito, porque as raízes também precisam de ar. Você fica aqui comigo e você sabe quem eu sou, porque você me vê no meu espaço. Não importa mais aonde eu irei ou onde eu ficarei, porque onde eu estiver eu estarei lá.
Sétimo duodécimo
Publicado; junho 3, 2011 Filed under: 6, Duodécimos Leave a comment »Perder como se perde algo de vista como se perde um jogo como se perde um ônibus
Como se perde a hora
Como é que se perde?
Eu perdi alguém.
Mas como é que se perde? Como é que vai embora só uma parte? Como é que pára de funcionar?
Por que às vezes vai embora o corpo e fica a alma e às vezes a alma vai embora e o corpo fica?
O que se faz com isso? Enterra o corpo aterra a alma?
A pele perde a cor, os olhos perdem o brilho. Perde-se o calor.
Eu perco perco as pessoas.
Eu me perco com sua alma em mim. Mas como é que se perde?
Se você não tá aqui, onde você tá?
Faltam tantas coisas, faltaram tantas coisas.
Muitas muitas coisas faltaram.
Eu perdi.
Eu perdi alguém.
Eu perdi alguém pra vida.
Eu perdi alguém de vista, porque fechei os olhos.
E por todo o tempo que eu tive, eu perdi pra minha vida estranha, pra minha falta.
Falta.
Falta uma montanha de coisas.
Como é que se perde alguém?
Onde você tá? Onde você tá? Como você tá?
Eu me despedi sem saber pra onde você ia.
Você foi e eu tô aqui perdida.
Como é que fica só uma parte?
Como é que pára de funcionar?
Como é que se perde?
Sexto duodécimo
Publicado; junho 1, 2011 Filed under: 1, Duodécimos Leave a comment »Você quer saber a medida em litros? Do quanto eu gosto de você ou do quanto você me irrita? Quer tanto acreditar que eu estou mentindo que vai me convencer de que estou. Eu estou pela metade. Eu não quero mais falar. Não respondo mais nada. Quer a medida do cansaço e da preguiça também?
Você quer saber a medida em litros? Não sabe medir com as palavras, não é? Você quer saber a medida em litros? Essa palavra tem um metro e sessenta. A frase toda pesa quarenta e nove quilos, sem contar com as entre-linhas.
Você vai me convencer, ontem foi por pouco. Quase acreditei que sou de mentira, que eu não existo, que não sou nada.
Eu vou abolir o verbo ser.
Não serve para nada. Eu estou de mentira. Os ingleses e franceses sabem. Quem mais deve saber que ser não serve para nada? Como deve ser estranho a eles aprender português e descobrir que existe ser, tal coisa tão definitiva.
Eu nunca mais vou dizer que sou maluca, porque vai passar. Você vai passar, já passou. Você até me convenceu de que você nem esteve. Quase. Você me disse que você é, que tudo foi. Diz muitas coisas. Se eu diminuir um verbo do meu vocabulário já posso parar de dizer tantas coisas, de te ouvir tanto. Posso parar de querer estar tão constante.
Estou com fome. Estou com febre. Estou sensível. Estou de touro. Estou melhor que ontem. Estou você.
As flores não eram amarelas. Elas estavam amarelas. Quando elas morreram, elas ficaram uma espécie de marrom.
Você quer saber a medida do meu estar em litros? Estou o quanto cabe de água na sala quadrada, descontando a baleia, que fez transbordar-me. Estou aqui nessas linhas, apesar de você tentar me convencer de que não estou eu as escrevendo, de que elas estão de mentira. Eu estou pela metade. Não, não desconte a baleia, que faz parte.
O professor passa a aula inteira virando páginas de um livro com muitas fotos. Não entendo, eu não peguei o começo. A sala assiste o virar das páginas em silêncio. Ele segura o livro na altura do peito, voltado para nós. Tem sempre a dobra do livro no meio das fotos. O livro acaba e o professor exclama “é incrível, né?”. Não, não é nada. Nada é. A sala sustenta o silêncio. Não quero mais que ele vire uma página. Tem sempre a dobra do livro nas fotos, a costura, e a morte no olhar daquelas pessoas.
O outono é a estação da troca de folhas. O outono está a estação da troca de folhas. O outono está trocando as folhas. O outono está a estação do estar. Devir. Eu nasci no outono. Você quer saber quanto mede em litros? Quase não tem mais nada. Além do frio. Esse virar de páginas, as fotos com dobras ao meio, o cair das folhas, a troca. Como se diz outono em inglês mesmo? Eu estou pela metade.
Quinto duodécimo
Publicado; maio 26, 2011 Filed under: 1, Duodécimos Leave a comment »é o começo do silêncio? pergunto porque tenho dúvida. silêncio aparente. sala quadrada. sento-me em uma ponta, num canto, sobre cadeira. eu te espero. você entra, como se fosse natural estar lá. a sala é azul. azul por causa da água. a sala está submersa, mas você age como se não percebesse nem parte da sua blusa que flutua. eu prendo a respiração. talvez não tenha pegado fôlego o suficiente para estar aqui. você se senta no canto diagonalmente oposto a mim. concentro-me em parecer estar concentrada em alguma coisa. eu te olho enquanto você procura algo, que não vai encontrar, no bolso de dentro do casaco. você me olha enquanto eu olho para a porta. em seguida para as bolhas. manutenção da visão periférica para não perde-lo de vista. uma baleia jubarte passa no meio da sala neste momento. de onde veio. fez transbordar parte da água, não há espaço aqui. ela é lenta, causando certa ansiedade sobre a sua ausência do meu campo de visão. ela passa, você está lá. ela flutua em círculos, imóvel. deve estar morta. deve ser de mentira. deve ter sido você quem trouxe. eu me levanto, flutuando por um segundo e voltando suavemente ao chão. talvez não agüente muito mais tempo sem ar. hesito em falar com você. você percebe. estou pronta, mas não quero dar um passo. não sei me locomover direito quando submersa. a baleia passa novamente, dura, está presa nesse movimento. a ondulação na água me faz flutuar. eu sou um fluido. finjo que subi na cadeira. consigo te ver, você levantou, faz suas coisas, faz o que tem que fazer. será que fui eu quem a trouxe? você se incomoda com ela. não me lembro. nem como cheguei aqui. só que te esperava. sinto meus dedos enrugarem, olho minhas mãos, parecem velhas. não posso mais ficar aqui. ela veio me avisar que ele está me esperando. por isso ela te incomoda. por isso você não quer falar comigo. estou sem ar. você me olha por um momento, sabe que vou embora. reprova-me, eu me sinto mal. você diz alguma coisa, saem bolhas. eu sei que foram palavras duras. me aproximo da baleia, ela compreende, abre a boca sugando muita água. continuo com o olhar no seu enquanto fluo. tem tristeza nessa água. tem. vou morar na baleia, mas eu não caibo. ela que vai morar em mim.
Quarto duodécimo
Publicado; maio 24, 2011 Filed under: 6, Duodécimos 1 Comment »
A flor morreu ali na minha sala
Na ante-sala do meu quarto-sala
que é a sala de jantar
A flor morreu ali por falta
e antes de morrer ela secou
e antes de secar ela murchou
e antes de murchar ela foi
o que se espera de uma flor
Eu olhei de relance para este fato
porque não havia planejado
dia do meu dia
para lidar com perda
Era de se esperar
era de se esperar que eu não coubesse
nessa casa e que eu não coubesse
trazer essa flor
Se eu sou tão pequena perto de mim mesma
Sustentaria uma baleia sem contornos na minha costela
Precisei me conter o resto do dia
pela morte da flor
pela minha indignação
pela constatação do meu amor
Não o meu amor por mim ou por você
ou por você
mas só amor
Que diluição é essa?
A água turva
Na luz esverdeada da minha sala
da ante-sala do meu quarto-sala
sala-quarto
A flor morreu ali
por falta
sofá-cama
cama-quarto
de espaço
Se existe espaço entre um grão de areia e outro na praia
existe espaço para mim em mim
existe espaço para a flor no fim
existe espaço para a casa na minha sala
Antes de não caber eu enquanto caía
antes de enquanto cair eu água turva
antes de água turva
eu nunca fui o que esperei de mim
Agora não mais espero nada
Eu só aguardo
oguardo
Terceiro duodécimo
Publicado; maio 18, 2011 Filed under: 6, Duodécimos Leave a comment »Abismo brilha em fundo amarelo enquanto queda
Profundo constante
Meus olhos doem.
Não. Atrás dos meus olhos dói.
Queria ser tão amarelo? Na região do estômago?
Meu estômago quente com essa luz.
Me deixa confusa, me deixa com medo.
Tinha que ser tão ofuscante? Turva a vista
O seu olhar.
No fundo do seu olhar.
Não. Atrás do seu olhar.
Vai se esconder do sol
Que sou
Oculto!
Colocará a mão no rosto em gesto de proteção e impedirá que se veja…
Amarelo tanto
A cor da fraqueza tão forte
Maior fraqueza
A mais forte
Não se enxerga nada
A luz nem sempre…
A cor da minha presença. A cor do meu estômago.
Pode me olhar e ver o medo
Não direi nada caso não perguntem esconderei com a mão o meu olhar
Sobre essa luz amarela na região do meu estômago, enquanto eu caio, eu digo
Eu queria ser verde e fixa na presença sua
Segundo duodécimo
Publicado; maio 10, 2011 Filed under: 1, Duodécimos Leave a comment »Tá tarde. Melhor sair. Não vou ficar aqui, não tem espaço aqui. Mesmo porque está tarde. Entre dois. Onde estão se são dois. Eu nunca estou sozinha. Eu sempre
Desço as escadas e paro na calçada esperando leva de carros para atravessar. Leve, como ele é leve e me faz.
- Eu não vou confessar! Eu não tenho o quê.
Do outro lado da rua, uma pessoa qualquer assente com a cabeça, está avisado.
Oscilação. É a reprodução da estrutura. É condicionante. Está dado. Opera no ideal. Não tenho estímulo diante do que reconheço. Eu reconheço tudo.
Eu me habituei, teria eu? Sou fria e estranha, você disse, número dois. Você diz muitas coisas. Que é para eu ir embora, o que seria melhor, que eu devo te esperar, nem se eu quisesse, nem que você queira. E eu vou embora e você corre atrás de mim, pára ao meu lado enquanto eu espero passar a leva de carros para atravessar a rua.
- Eu não vou confessar! Eu não tenho
- Me leva com você.
Você assente com a cabeça e já está dito, você já sabe, reconhece tudo. Você continua. Eu queria fazer uma pergunta.
- Amor, faz um desenho aqui, eu digo para o número um.
- Faço
- Eu queria fazer uma pergunta.
- Faça
- Você vai responder com outra pergunta?
- Como eu vou saber?
Não pensa. Não pensa. Não pensa nisso agora, sua cabeça vai explodir!
Parada na calçada, esperando para atravessar, uma leva de carros que passa. Luzes muito fortes. Sempre duplas luzes, vocês dois. As luzes são muito fortes, não enxergo nada atrás das luzes. Atravesso. Não tem nada mesmo.
Corres atrás de mim, não me deixas. Pega em gancho parte da minha roupa.
- Eu salvei sua vida
- Eu não vou confessar! Não vou.
Os carros buzinam, como são leves. Coisas
Já é hora de sair. Estou com pressa. Estou de mudança. Vou mudar daqui, você pediu.
- Mas eu menti. Tudo o que eu disse era mentira, eu confesso. Eu confesso! Só estou sendo racional.
Você entrou no metrô, desceu as escadas e eu fiquei na calçada esperando para atravessar. Leve
Cena dos guardanapos – ou Primeiro duodécimo
Publicado; abril 23, 2011 Filed under: 1, Duodécimos 2 Comments »Lá eu me perdi, lá eu fiquei. Por um momento, só por um momento. Quando vi eu só fingia que você não estava ali ou que você está dentro de mim às vezes. E passava e passava e dançava e bebia, um dois cinco copos e derramava e passava até que você me parou e disse é melhor você ir. Eu sabia com certeza que nos olhavam e que já conheciam, você não, nem queria por perto. Flashs de fotografia ou as próprias luzes do lugar, eu me punha nelas, me posicionava, ajustava minha camisa pra você me ver melhor de uma maneira que julgava muito discreta, a alça do meu sutiã caída larga sobre o meu braço branco branco. Não funcionava e eu não entendia. Você se afastava e eu temia, tremia. E eu puxava o seu ombro, atenta, sempre atenta aos olhares. E você na parede encostado. Você não sabe que eu vim aqui por sua causa? Eu dizia com um olhar em direção ao chão. Era assim que eu dizia. Eu disse tudo só de não te olhar. E você respondia em palavras audíveis distantes vamos fingir que a gente não sabe de nada? Que bom que você vai pra lá, pois vá agora, é melhor. E corria para aquelas pessoas, num outro fim de tudo. E tudo acontecia piscantemente, em poucos fotogramas espaçados por segundo. Por segundos. Só por um segundo eu estive lá, fingi que não estava, você fingiu que preferia que eu não estivesse, e agora aqui. E agora aqui? Devagar, me diga. Quando é o tempo de. Quando é o tempo da fotografia? É nunca é pra sempre. Quando é o tempo entre uma luz e outra. E o seus gestos carinhosos que não cabem? Nesse tempo. Sempre nos viam entre as escuridões de entre os flashs. Quando você volta se hoje você não veio. E se eu não voltar mais? E se eu. O que você quer de mim, que eu dobre uns guardanapos? Por que então me olhar nos meus olhos, tão lá, enquanto me entrega o pacote de guardanapos? E se eu pegar os guardanapos e não desviar o olhar, nunca mais. E se nós, dois juntos, esquecermos por um segundo, só por um momento, essa história de guardanapos? Lá eu quero ficar, mesmo você me dizendo que bom que você vai. Mesmo que eu tenha que ir sem conseguir deixar de ficar. Sem nunca mais deixar de sussurrar me entrega um copo de cerveja. Todo mundo sabe que eu não tomo cerveja e você sabe que não é pra mim esse copo e por que eu peço sussurrando você perguntou. O suor da garrafa escorre até cair no guardanapo, que fica grudado, mesmo, e o copo é gelado de uma gelidão fosca. Não interessa, quando tudo significa somente outra coisa eu não sei mais e me perco e me perco e me perco e me perco e me perco e me perco e quando e será.
Você ta tranqüila aí?
Sim, por que? Você quer alguma coisa de mim?
…
…
Sim…
O quê?
…
…
Que você dobre esses guardanapos.
! Ah, claro