meu pai se mudou pro interior

quando pequena, assim menor do que hoje, eu subia uma escada para ver meu pai. era um andar só, mas quem disse que era fácil? quem disse que não era um longo andar? meu pai nunca foi muito acessível. minhas pernas bem fininhas tremiam sempre do esforço.

eu tenho uma foto que pode comprovar: eu, com oito anos e as pernas bem fininhas, os braços também, me parece, eu tinha um óculos de sol cor de rosa e estava usando um chapéu, parada com os braços abertos, fazendo pose no cristo redentor, lá no alto do rio de janeiro, em janeiro, rindo. meu pai que me levou. ele mesmo bateu a foto. toda vez que alguém vê essa foto diz em tom zombeteiro: ah, a clássica pose dos turistas no cristo! e eu respondo, querendo entrar na piada: não estava imitando o cristo, estava pedindo um abraço, ha-ha.

eu subia aquela escada para ver meu pai quando queria, eu subia devagar, porque era só um andar e para ele não me ouvir muito (também por causa do esforço). um dia eu subi bem rápido, abri a porta e falei: papai, um dia eu serei uma grande atriz. hoje, aquela escada nem sequer existe (meu pai prefere casas térreas) (ele prefere morar no interior) (ele gosta da calmaria), mas se eu fizer aqui um cálculo, sim, acho que bem precisamente e com bastante certeza, eu posso dizer que subi aquela escada muito mais vezes do que desci.


Movimentos anti-horários

Há horas que eu notei que o suco de maracujá é bifásico. Que toda vez que eu quero dar um gole eu tenho que mexer com o canudo em movimentos circulares rápidos (anti-horário: minha tia reparou que eu mexo as bebidas em sentido anti-horário em algum dia que eu misturava o ovomaltine com leite e não sei porquê ela estava presente e menos ainda porquê ela notou esse detalhe e muito menos porquê ela mencionou isso em voz alta, fazendo com que todos na mesa fizessem o teste para constatar a que lado eles giravam a colher ao misturar suas respectivas bebidas – aparentemente só eu o fazia em sentido anti-horário). E nesse intervalo de tempo em que eu tento tornar o suco um amarelo só, entre o impulso do gole e o gole em si, eu já esqueci que ia dar um gole e torno a deixá-lo de lado por mais alguns minutos, de modo que cada parte assume o seu lugar novamente, a parte de cima menor, mais densa e mais amarela, e a de baixo maior e mais aguada. É que há horas que eu estou perdida aqui, nessa mesa enorme. Na vida. Eu estou perdida na vida, verificando de cinco em cinco minutos o relógio, como se eu tivesse um compromisso ou como se eu quisesse saber exatamente quanto tempo tem durado a minha falta de compromisso. Faz horas que esse copo está ao lado do meu cotovelo esquerdo. E eu nem sequer dei um gole, porque eu não gosto de suco de maracujá. Eu tenho medo que ele me dê sono. Eu acho ele muito ácido. E a fruta me remete a coisas velhas. Meu cotovelo esquerdo está no mesmo lugar há tanto tempo, apoiando a minha cabeça pesada. Meu braço está dormindo, mas eu não quero me mexer. É esse suco que me deixou sem vontade de nada. Como se eu fosse a calma em si.

Meu corpo todo está formigando agora, há horas que eu nem calculo mais quantos sucos eu tomei, porque eu não bebo mais, eu não bebo mais por sua causa, o suco de maracujá era pra eu pensar que eu poderia não pensar tanto em você, mas cada vez que eu tenho que misturar as partes eu lembro, a cada gole, eu lembro de sentar no seu colo com os braços em volta do seu pescoço e me sentir bem pequena bem pequena e no lugar, ou lembro de quando a gente pedia o mesmo suco numa espécie de cumplicidade e você tomava o seu muito rápido e em seguida o resto do meu e a gente pedia um terceiro porque você bebia muito suco. Porque eu bebi demais por você. Porque eu bebi e esqueci de comer sempre e quando eu lembrei eu comi algo muito gorduroso ou chocolate. Eu lembrava uma vez a cada dois dias de comer. Uma vez a cada dois dias eu lembrava de você, quando eu ficava sóbria, na verdade eu lembrava que eu lembrava (porque eu sempre lembrava) e foi isso e foi assim que eu vim parar aqui tomando sucos de maracujá depois que meu fígado atestou minha falta de limites liberando um monte daquele liquido verde e amargo durante vários dias e principalmente no dia após o ano-novo. Não tem problema. Nada disso tem problema. Não pode ser um problema qualquer coisa que eu faça por você. Nem auto-destruição. Eu me sinto feliz de que tudo seja assim por você. Eu me sinto feliz de ficar tão triste por você. Porque você é muito bonito e nós dois juntos: não tinha nenhum par de pessoas que pudesse ser mais lindo do que nós dois juntos.

Não tomei nem um suco inteiro, eu não bebo mais desde o ano-novo, parece que eu estou guardando o resto do meu suco para você, sempre, eu nunca termino um suco, uma lata de refrigerante, um copo d’água. Nada. É pra você. É como um presente. Um agrado que só eu faria. Há horas que estou olhando o suco de maracujá, que é bifásico, e olhando o relógio de cinco em cinco minutos como se eu estivesse esperando a hora que você vai aparecer para tomar o resto que eu deixei. Que eu não quero mais. Eu deixei de beber e passei a correr. Eu corri tanto, tanto, eu corri mais do que eu podia, eu fiquei vermelha, eu senti minha cabeça pulsar, eu comprei um tênis novo de corrida, eu senti meu ouvido doer e eu cair no gramado do parque e abrir os olhos para ver um velho que parecia dois por um momento me perguntar se eu estava bem se eu estava louca de correr assim se eu estava magra demais se eu tinha comido se eu queria água. Ele não era um velho, ele só me pareceu um velho. Eu disse que não para todas as perguntas. Eu queria ser saudável. Mas eu ainda não queria comer. Eu só posso fazer tudo na mesma intensidade do que eu sinto por você. Como eu posso beber um suco que se desintegra a cada dois minutos? Perto do meu cotovelo esquerdo, que está sustentando minha cabeça pesada, causando um formigamento que caminha pelo meu corpo todo, faz dormir minha mão e logo em seguida meu cérebro. Eu sonho que tenho medo que você não goste do suco, que você ache que ele dá sono e que a fruta lhe remeta a coisas velhas. Eu sonho que o amarelo do maracujá fica marrom. Eu sonho que eu perdi a noção do compromisso, que eu perdi a hora porque eu não dei atenção ao relógio, que eu faltei e que eu jamais poderia me perdoar. Eu sonho que eu fiz tudo por amor e que não tem problema, que nada que eu faça por amor pode ser um problema, nem destruir o próprio amor. Eu sonho que minha tia me alerta sobre misturar bebidas em sentido anti-horário, me pergunta se eu estou louca de correr assim e me oferece água.

Eu acordo nessa mesa enorme. Há horas que eu estou perdida aqui. Na vida. Meu braço esquerdo eu já não sinto mais, mas eu sei que ainda o tenho. Não há mais suco no copo. Provavelmente você passou por aqui e eu te perdi de novo. Eu não dei um gole nesse suco, porque eu não gosto de maracujá, eu tenho medo que ele me dê sono.


ATO DOIS CENA OITO

O palco é extremamente escuro. Entram a Mulher, do lado direito, e o Homem, do lado esquerdo. Eles caminham em direção ao centro do palco, seguidos por focos de luz, olham-se nos olhos. Antes que possam chegar perto um do outro, o foco de luz que ilumina o Homem se apaga. Ele desaparece. A Mulher paralisa, procura-o por tempo longo. Não o encontra. Ela continua o trajeto, já sem a mesma determinação. Ela sai do outro lado do palco. Um foco de luz se acende mais ao fundo, revelando o Homem, que está parado olhando para baixo. Ele encara a platéia por tempo longo. A luz se apaga.

VOZ OFF – Não.

Entram novamente a Mulher, do lado esquerdo, e o Homem, do lado direito, iluminados por focos de luz, caminham em direção ao centro do palco. Eles olham para baixo. A Mulher olha para frente, percebe o Homem, volta a olhar para baixo. O Homem olha para frente, percebe a Mulher, volta a olhar para baixo. No centro do palco, eles desviam um do outro. Os dois seguem até o outro lado do palco. A Mulher sai. O Homem, antes de sair, pára e olha para trás. A luz se apaga.

VOZ OFF – Não.

Entram a Mulher, do lado direito, e o Homem, do lado esquerdo, iluminados por focos de luz, caminham em direção ao centro do palco. Eles olham para baixo. Ao chegarem perto um do outro vão diminuindo a velocidade até que param com um palmo de distância entre eles. Lentamente levantam a cabeça e olham-se nos olhos. O palco se ilumina. Silêncio por tempo longo.

MULHER – Eu não sei o que fazer.

VOZ OFF – Não?

HOMEM – Por que nós só não continuamos nossos dias?

Silêncio. O palco se apaga novamente, restando apenas os focos de luz que iluminam cada um deles. Eles ainda se olham por um tempo, depois seguem seus caminhos, cada um para um lado do palco, andam mais rápido. Eles saem. Entram logo em seguida por outros pontos do palco, caminhando em direção ao centro, mas dessa vez não estão na mesma linha (o Homem está mais a frente e a Mulher mais atrás ou vice-versa), continuam iluminados por focos de luz que os acompanham. Eles andam mais rápido. Não se olham. Saem e entram novamente no palco por outros pontos, várias vezes, nunca se encontrando ou se olhando e andando cada vez mais rápido, até que começam a correr. Em algum momento, eles entram correndo pela mesma linha e se trombam no centro do palco, caindo um em cima do outro. O palco se ilumina. Eles ficam parados exatamente como caíram por um tempo longo, sem se mexer. Ouvem-se apenas suas respirações ofegantes. Tentam levantar algumas vezes, mas não conseguem, caem novamente um por cima do outro. Desistem. A luz se apaga.

VOZ OFF – Não.

A luz do palco se acende, está vazio. Entram a Mulher, pelo lado direito, e o Homem, pelo lado esquerdo. Caminham devagar até o centro, olhando-se nos olhos. Estão ainda ofegantes da corrida e um pouco descabelados da queda. Param um na frente do outro.

HOMEM – Quem é você?

MULHER – Sou eu que não te conheço mais.

HOMEM – Mas por onde você anda?

MULHER – Por onde você anda.

HOMEM – Por que nós só não continuamos nossos dias?

MULHER – E como eles serão?

HOMEM – Como eles seriam.

MULHER – Se nós não tivéssemos nos encontrado…

HOMEM – O que?

MULHER – O que? Oi?

HOMEM – Oi, tudo bom?

MULHER – Tudo bem, e você?

HOMEM – Tudo tudo.

(silêncio)

MULHER – Por que nós só não continuamos nossas vidas?

HOMEM – Nossa vida?

MULHER – Cada um a sua.

HOMEM – Porque não.

VOZ OFF – Não.

MULHER – Porque não não é resposta.

HOMEM – Não.

VOZ OFF – Não.

MULHER – Não mesmo.

HOMEM – Se nós não tivéssemos nos encontrado…

MULHER – O que?

HOMEM – Oi?

MULHER – Oi, e aí?

HOMEM – E aí, tudo bem?

MULHER – Tudo tudo. Quanto tempo.

HOMEM – Pois é…

MULHER – Mas por onde você anda?

HOMEM – Por onde você anda.

MULHER – Hum…

(silêncio)

HOMEM – Eu não sei o que fazer.

VOZ OFF – Não?

MULHER – Então tá…

HOMEM – Tá.

MULHER – Então tchau.

HOMEM – Tchau.

O palco se apaga. Focos de luz iluminam cada um deles, que começam a andar em direção ao outro lado do palco. O Homem pára e olha para trás. A Mulher pára mas não olha para trás. O foco de luz que a ilumina se apaga. Ela desaparece. O Homem procura-a por tempo longo. Não a encontra. Ele sai. Um foco de luz se acende mais ao fundo, revelando a Mulher, que está parada olhando para baixo. Ela encara a platéia, por tempo longo. A luz se apaga.

FIM.


Um texto para ser lido em voz alta

Ninguém disse que eu não podia falar. Fui eu que disse.

Então eu não falo. Eu não escuto mais. Eu escolhi assim.

Eu leio você nas minhas próprias palavras. E dizer você é algo que tenho tentado evitar.

Dizer em voz alta.

Não passaria pela minha cabeça te receber. E, no entanto, é só no que penso. Penso todos os dias em todas as horas. acho que praticamente todas as horas, sim, pelo menos por um ou dois minutos. Penso em te receber em mim. Não, eu simplesmente recebo, sem nenhum controle. E é isso o que faz com que eu acredite que só te recebendo de fato eu seria uma pessoa. Poderia dizer a mim mesma: eu escolhi assim.

Você vem de qualquer jeito, mas e se eu pensar que te chamei

Eu não tenho a coragem de ser.

Eu posso me expor, mas eu não tenho a coragem de ser. Eu não saio nas ruas e olho para os lados e penso: isso sou eu.

Ninguém disse que eu não podia falar. Fui eu que disse. Isso sou eu.

Eu não sei o que dizer a mim mesma. Eu me olhei agora e pensei: por que eu só não me escuto? Eu não estou dizendo a verdade? Eu não estou dizendo o que sei? Eu não sei o que dizer a mim mesma. Eu me olhei agora e pensei: você não pode falar.

Então eu não falo. Mas eu continuo me escutando aqui de dentro. Eu escolhi assim.

Olha hoje. Hoje eu estava caminhando sozinha. Eu queria chegar até o ponto de ônibus sozinha. Eu cheguei até o ponto de ônibus sozinha. (eu estava ouvindo a música que você me enviou, mas eu estava sozinha). Eu sentei na grade de ferro do ponto de ônibus sozinha. Eu vi alguns ônibus passarem. Não eram o meu. O meu era azul claro. Eu estava sozinha. Eu estava pensando em muitas coisas sozinha. Eu pensei em tudo o que ia fazer hoje sozinha. Enumerei-as na minha cabeça. Eu notei que tinha pouco tempo. Eu observei as pessoas sozinha. Eu comentei sobre elas comigo mesma. Porque eu estava sozinha.

Quando: eu perdi meu ônibus.

Ele passou. Eu nem vi. Azul claro. Eu estava sozinha. Eu bati com o punho fechado no meu próprio joelho e disse “droga”. Sozinha.

Eu lembrei de você. Eu lembrei da nossa foto no dia do picnic. Eu lembrei que estava nublado naquele dia. Eu pensei que ia chover hoje. Eu lembrei de você. Eu pensei que ia perder o horário da exposição. Eu lembrei da nossa foto, porque de você mesmo eu não me lembro, eu só lembro como é encostar no seu rosto com as duas mãos. A imagem

Eu trouxe o guarda-chuva, mas

Não foi assim. Foi assim que eu escolhi dizer.

Eu engoli minha vontade de chorar.

Eu não sei nem como me dizer isso, mas eu só segurei com o músculo da garganta.

Então eu não falo, mas eu continuo me escutando aqui de dentro. Eu escolhi assim. Eu não choro mais há dias. Dias. Dias. Dias. Semanas. Foi assim que eu perdi a voz. O músculo da garganta. As cordas vocais. Dor. Inflamação. Rouquidão. Chás de gengibre. Chás de camomila.

Minhas escolhas sou eu quem tenho feito?

Chá de gengibre, extrato de própolis. Seu cachecol que ficou aqui.

Ninguém disse que eu não podia falar, fui eu que disse que eu não podia falar.

Eu falo comigo mesma através de atos falhos que eu finjo não perceber.

Ninguém disse que eu não podia falar fui eu. Então eu não falo. Eu leio você nas minhas próprias palavras. Eu leio em voz alta. Dizer você é algo que tenho tentado evitar. Eu não escuto mais. Eu escolhi assim.

E outra: eu não mencionei a palavra saudade. Não passaria pela minha cabeça te receber.


Experiência do amor na cidade

O meio em que vivo produz a imagem que tenho de mim. Vejo-me refletida em todos os lugares. Espelhos que me repelem e ao mesmo tempo me aproximam, me encostam em si mesmos sem ser eu. E ao mesmo tempo sou, porque não posso ser.

Uma parte de tudo.

Uma outra parte das pessoas com quem me relaciono. Se eu sou um espelho na cidade, serei os prédio, serei também você. Ou você me será, porque existirei somente em relação à sua existência. À sua presença. Projetada pelos prédios nas ruas. Vocês não estará do lado de dentro. Do lado de dentro você não será visto. Somente quando estiver escuro, se você permanecer.

No escuro, ficará transparente.

Não digo que eu não procurarei você em nada, nos prédios totalmente desertos de madrugada, com pés-direitos altíssimos nos halls, eu me sentirei intimidada e não continuarei. Não percorrerei a burocracia que é te ver do lado de dentro, depois das catracas. Eu olharei de fora, de onde posso ver através. De onde a luz de dentro torna a superfície fronteirosa transparente. De longe. De fora. Eu te verei e não estarei refletida. Porque a escuridão deixará passar a luz que vem de dentro. Seu espelho que costuma me refletir tornar-se-á um vidro. E só.

Você parece tão frágil.

Você parece tão frágil refletindo o céu, as nuvens passando. Eu mesma. Na luz do dia. Você parece frágil tendo que me refletir. Eu pareço frágil no reflexo, sem fundamento de estar ali. Às vezes, ainda, minha imagem se vê fragmentada por alguma linhas divisória nos espelhos, alguma tentativa de junção que só revela a sua falta de integridade. Você não é inteiro, como posso ser? Você frágil. Não pode deixar que eu me veja em você, porque me dói. Me dói me ver em todos os lugares e não saber que é meu reflexo. O que é. Quero andar na rua, você não deixa, eu ando em você, eu olho para o lado e vejo o que deveria ver só do outro lado e não vejo nada. Nada.

Não tem mais nada entre nós.

Você me repele, como se eu fosse repugnante. Você repele tudo. Você tão grande, mal sabe o que poderia fazer por todos nós, mas não faz. Isolado. Hermético. Fechado. Entrópico. Você me dá medo. Você se disfarça. Você sou eu.

Não consigo andar nas ruas.

Me sinto diminuída, me sinto não fazendo parte de você. Você me quer do lado de dentro. Do lado de dentro, estamos todos fora. Violenta. Desgastada. Desgastante. Você quer ser visto por cima, você quer se sentir pequeno. Porque então ficou tão alto? Daqui de baixo, não dá para ver nada. O céu se esconde refletido na sua face. Nas suas faces.

Não quero ser nada.

No entanto, sou tão parte de você quanto você de mim. Como você pode me abandonar?  Quantas faces você quer ter? Por que quer ter a minha? Por que não me devolve a minha imagem? Por que me devolve à rua a todo momento? Ao mesmo tempo em que me faz ser você? Estar em você. Mesmo do lado de fora.

Eu não quero fazer parte.

Ontem choveu e procurei você. Queria ficar do seu lado de dentro. Me sentir protegida. Mas fiquei aterrorizada. Como se os pingos da chuva pudessem te quebrar. Você desmoronaria em cima de mim. Minha morte viria da sua. A morte da minha experiência viria da sua implosão. Como se você não fosse suportar a garoa. Você, pálido como o céu, tentando fingir um azulado. Artificial. Estamos acostumados com essa chuva, você disse. E eu pensei.

Quantas vezes eu terei que repetir?

Por mais quanto tempo você vai se repetir? Quantas vezes mais você vai tentar mostrar o que sou? Por que não me permite ser antes de penetrar na minha vida? Todos os seus artifícios. Todas as suas promessas. Cadê você? Cadê você aqui? Onde a gente está? O que significa estar aqui? Você aterrador. Vertical. Me esmagando.

Eu aqui incrustada no cimento. Totalmente presa ao fato de ter nascido em você. De sentir uma ligação cósmica com a sua experiência. Eu vou embora, não consigo evitar de voltar. Eu pertenço a você.

O que será de mim?

O que será de nós?

Não tem mais nada entre nós.


e como estava cansada eu deitei

E como estava cansada. Eu deitei.

Eu uso o ponto final para falar dos Beatles: eu uso dois pontos para falar dos Rolling Stones.

Deitei na sacada: que parecia fresco.

eu tinha uma leve dor de cabeça eu não como carboidrato há dias

Às vezes não uso nada.

Eu não possuo sacada. Eu não estou de regime.

(nem sei o que te dizer)

Na sacada era um silêncio só. Silêncio. S i l ê n c i o. Só.

Os parênteses são para as coisas que ficam de fora mas que precisam estar dentro.

Eu pensei que pudesse estar curada, talvez, porém cansada.

(não sinto mais nada)

Eventualmente eu uso do jeito errado.

(sacada)

Eu deitei: minha cabeça doía.

Minha cabeça dói. Eu (não sei se) escrevo um texto ou um email.

É possível que isso seja um poema. Não há mais como saber.

Se estive doente ou indisposta.

O começo de “It’s all over now”. Me agrada. Porque parece levar tudo para longe. Antes que comece a música.

Ou eu tomo o remédio ou:

Eu te espero: achei você estranho hoje no telefone e o dia inteiro estava estranho distante e estranho no telefone sua voz que não estava tão boa eu não entendi se o problema era minha indisposição ou a sua.

(Fiquei pensando nisso)

(pausa)

(fico)

Porque eu espero e eu espero e eu espero muitas coisas. Não.

A sacada era vazia. O piso frio. A grade vazada. A luz baixa. A vista ampla. O espaço curto. O tempo pequeno.

Só. Caberia. Nós dois.

(Nós: dois. Caberia. Só.)

(Caberia: só. Nós dois.)

(Nós: só. Caberia: dois.)

(Caberia) Nós dois

(só)

Dois.

Um.

Só.

Eu não consigo nenhum número. Só.

(mas foi você que ligou)

É que às vezes não uso nada

E finjo que eu gosto do silêncio

(aprecio muito o silêncio)

Mas esqueço de pontuar:

afirmações

interrogações

despedidas

o quanto eu gosto de você

(exclamação)

Então prefiro não falar nada.

De vez em quando também pode ser que eu pontue demais:

Decidi que tomo o remédio. (estou doente, não apenas cansada)

Que os Rolling Stones têm me deixado satisfeita. (I can’t get no satisfaction cause I try)

Que os Beatles não têm me caído muito bem. (boy you’re gonna carry that weight a long time)

Que só caberíamos nós dois.

(sacada)


felicidade

felicidade. prejuízo. morte. amarelo. amarelo. cansaço. felicidade. fígado. rede social: azul. amarelo. saber. felicidade: saber. verdade. memória. sempre. destruição. felicidade: inventar. ideal. rede social: amarelo. verdade. um recorte. uma fotografia. um amor. uma unidade. só uma saudade. felicidade: um. unidade. felicidade: estar inteiro. espalhar não. não vários. tampouco menos. tão pouco. felicidade: tão pouco.

felicidade amarela. alegria. estômago. ansiedade. não. abraço. aperto. sufoco. beijo. deixo. rede social: azul. sonhar. frio: cobrir. descobrir. encobrir. verdade. felicidade. pesadelo. amarelo. medo. felicidade amarelo medo. dor. morder uma falange. chorar. dor. rir: chorar. lágrima. água. corrente. água parada. emoção: felicidade. a ausência é azul. ausência: azul.

a ausência não é da pessoa, é da posição.

a pessoa não se ausenta, a pessoa fica.

a ausência é do ocupar. a ausência é do espaço.

a ausência não é do tempo.

 

ausência: rede social. tempo real. verdade. recriada. escolhida. dosada. uma dose de felicidade. amarelo. elo. ela. ele. ele continua. apesar. a pesar. a saudade é pontual mas não parece. a saudade é pontual mas tem cara de todo. todo. tudo. felicidade: nada. a felicidade é pontual mas tem cara de todo. a felicidade não parece. amarelo. não parece azul. aparecer. rede social: privado. público: rede social: azul.

 

a felicidade é: uma foto de um pote de ovomaltine que eu recebi por mensagem no meu celular num sábado entre dez e onze da manhã.

 

verdade: felicidade: ovomaltine: troféu: fotografia: rede social: memória: imagem: eu: mentira

 

guardar. vontade. poupar.

eu te encaminho uma música. ela diz. você curte os beatles. as pessoas sabem que eu te amo.   

 

a tristeza. a tristeza é: ficar feliz com uma foto de um pote de ovomaltine que eu recebi por mensagem no meu celular num sábado entre dez e onze da manhã.

 

não. isso é a felicidade. felicidade: código. prejuízo. cada vez menor. qualquer coisa menor. tão pouco. tampouco pequenos gestos. gesto: código. a felicidade está nos pequenos gestos. a felicidade está dentro de cada um. mensagem. a felicidade está nas coisas mais simples da vida. foto do pote de ovomaltine. a felicidade está onde a colocamos. sábado entre dez e onze. a felicidade. a verdade. é que ninguém sabe onde está.

 

te vejo. borda azul. ausência. você parece feliz. onde você está? felicidade. amarelo. cansaço. cansaço. saudade. memória. verdade. felicidade. que felicidade.